Cordéis contra o preconceito
Entrevista com Salete Maria,
do blog Cordelirando, sobre seus cordéis inovadores que atacam a
homofobia
UOO.
Salete, primeiro fale um pouco de você: sua idade, etnia, sua
profissão, formação, cidade onde vive, se é casada ou solteira, etc.
Sou Salete Maria, cordelista, brasileira. Moro em Juazeiro do Norte,
Ceará, cidade considerada a Meca do Sertão em face da figura mítica
do Padre Cícero Romão Batista. Nasci em São Paulo por força de um
problema social muito sério: o desemprego que, agravado pela seca,
assolou o nordeste do país e tangeu meus pais, assim como seus
conterrâneos, para o sudeste em busca de “uma vida melhor”. Toda
minha ascendência é nordestina. Sou bisneta de romeiros
pernambucanos, neta de cearenses analfabetos e filha de resistentes
sociais. Meu pai é um lavrador que em São Paulo virou pedreiro e
minha mãe é uma camponesa que em São Paulo foi faxineira. Vim ao
mundo em 1969, mais precisamente no dia 7 de março. Tenho cinco
irmãos e uma filha. Sou advogada, professora universitária e
militante de direitos humanos. Por conta da minha história de vida,
desenvolvi a compreensão de que o direito se constrói nas lutas
sociais, com muita peleja e poesia. Defendo o pluralismo jurídico e
literário e coloco minha formação e minha arte a serviço das causas
dos excluídos e marginalizados. Sou solteira e atualmente desenvolvo
estudos sobre gênero e direito, em nível de doutorado, na
Universidade Federal da Bahia, em Salvador. Escrevo contos, poemas
e, sobretudo, cordéis.
UOO. Fale um pouco sobre o cordel: sua origem, suas
características, seus principais expoentes.
Eu não conheço consenso acerca da origem da literatura de cordel.
Muitos afirmam que é de origem européia. Todavia, já ouvi “vozes
sábias” dizerem que esta literatura já existia desde a época dos
povos conquistadores de origem greco-romana; havendo chegado, por
volta do século XVI, a península ibérica, mais precisamente a
Espanha e Portugal. Nestes lugares este tipo de literatura recebia o
nome de “pliegos sueltos”, “folhas soltas” ou “volantes”. Aqui no
Brasil o cordel chega com os colonizadores e se instala,
primeiramente, na Bahia, em Salvador, e depois se expande para o
resto do nordeste.
Muitos sustentam que a característica fundamental do cordel é o fato
de ele ser uma
espécie de poesia popular, impressa e divulgada em folhetos
ilustrados com xilogravura. Todavia, já existem controvérsias sobre
isto, uma vez que este “popular” é bastante discutível, sendo também
possível a utilização de outras formas de ilustração, tais como
desenhos e clichês grafados em zinco, por exemplo.
Dizem que o cordel ganhou este nome porque os folhetos eram expostos
amarrados em cordões, estendidos em pequenas lojas de mercados
populares ou até mesmo nas ruas, em Portugal.
O
custo do cordel, tal como foi e ainda é produzido, é bastante
baixo, comparado com o custo de outras literaturas. Ademais,
geralmente estes folhetos são vendidos pelos próprios autores. O
cordel ainda goza de um certo prestígio em estados como Pernambuco,
Ceará, Alagoas, Paraíba e Bahia. Dizem que tal sucesso é atribuído
ao baixo preço e ao tom jocoso presente na narrativa da maioria dos
trabalhos. Em geral, os temas tratam de fatos que vão desde a vida
cotidiana até grandes fenômenos como secas, cangaço, religiosidade,
heroísmo, milagres, festas, política, disputas, etc. Todavia, já
existem cordelistas no Brasil discutindo e re-significando este tipo
de literatura, inclusive propondo uma crítica ao cordel tradicional,
como é o caso da Sociedade dos Cordelistas Mauditos, da qual
eu faço parte.
clique na figura para ler o cordel
Quanto ao modo de apresentação, ainda é possível se encontrar
cordéis sendo acompanhados pela viola em recitais públicos, porém em
menor quantidade.
Quanto aos ditos expoentes, pode se dizer que os livros e pesquisas
sobre cordel, em consonância com outras formas de historiografia,
confere maior visibilidade aos poetas homens, uma vez que a maioria
dos entendidos e experts neste campo só destaca os grandes
vates, dando a entender que não existem mulheres cordelistas no
mundo do folheto. E isto também se reproduz na fala e na prática de
muitos amantes do cordel ou até mesmo de respeitados e reconhecidos
produtores deste gênero literário. Uma prova disto é o fato de que a
Academia Brasileira de Literatura de Cordel,
sediada no Rio de Janeiro registra entre os “imortais”
ocupantes das 40 cadeiras, apenas seis mulheres, cuja produção, no
meu entender, se apresenta num tom bastante favorável à manutenção
deste status quo; valendo destacar que no estatuto desta
Academia, apenas 25% de suas cadeiras estão reservadas a
não-moradores da capital carioca, ou seja, não há apenas um
desequilíbrio na representatividade feminina, há também uma exclusão
de ordem geopolítica que impossibilita o ou a cordelista da margem
de ser reconhecido pelo cânone. Sobre os grandes nomes, se você perguntar a qualquer pesquisador ou
mesmo cordelista “bem informado”, vão dizer que o poeta da literatura de
cordel que fez mais sucesso até hoje foi Leandro Gomes de Barros
(1865-1918), que deve ter escrito mais de mil folhetos.
No
entanto, existem muitos poetas por este Brasil afora, mormente no
nordeste do país, com excelentes produções, porém ainda sem
oportunidade de apresentar seu trabalho.
UOO. O cordel é uma expressão artística tipicamente nordestina, mas
também se encontram cordelistas em outras partes do Brasil. Quais
seriam e quem são os artistas mais conhecidos.
No Brasil, realmente, o cordel tem sido mais produzido no nordeste,
onde ele chegou primeiro, se instalou e encontrou um ambiente fértil
para sua expansão e apreciação. Pernambuco, Paraíba e Ceará se
destacam entre os estados onde sua presença é mais forte. No Ceará,
a região do Cariri, onde eu moro, é um verdadeiro celeiro de
produção de literatura de Cordel. É na cidade de Juazeiro onde ainda
existe em pleno (porém difícil) funcionamento a Gráfica Lira
Nordestina, grande patrimônio e rico legado da produção de cordel no
país.
Por outro lado, e sobretudo por conta do êxodo, das diásporas às
quais já me referi, o cordel segue sendo apreciado e confeccionado
em outros cantos do país. Em estados como São Paulo, Rio de Janeiro
e Minas é possível encontrar cordel em espaços e feiras de produtos
nordestinos.
Como disse, são mais conhecidos os cordelistas homens, havendo
sempre o destaque nas diversas obras sobre a temática para poetas
como Leandro Gomes de Barros (1865-1918) e João Martins de Athayde
(1880-1959), enquanto precursores. As obras em geral e a imprensa
oficial têm dado destaque ainda, dentre tantos, aos seguintes nomes:
o baiano Antonio Teodoro dos Santos (1916), o pernambucano Apolônio
Alves dos Santos (1926); o cearense Arievaldo Viana Lima (1967); o
paraibano Cícero Vieira da Silva (1936); o pernambucano Caetano
Cosme da Silva (1927); o alagoano Enéias Tavares dos Santos (1932),
o paraibano Francisco das Chagas Batista (1882); o pernambucano
Francisco de Souza Campos (1926); o paraibano Francisco Firmino de
Paula (1911); o paraibano Francisco Sales de Arêda (1916), o
pernambucano Inácio Carioca (1932), o pernambucano Jota Barros
(1935), o baiano João Damasceno Nobre (1910); o sergipano João
Firmino Cabral (1940), o alagoano João Gomes de Sá; o cearense João
Lucas Evangelista (1937); o paraibano João Melchiades Ferreira da
Silva (1869); o paraibano Jose Camelo Resende, o pernambucano José
João dos Santos, conhecido como mestre Azulão, o pernambucano Zé
Pacheco, o pernambucano Manoel Monteiro, o baiano Minelvino
Francisco Silva, o paraibano Silvino Pirauá, dentre outros. Eu,
particularmente li e bebi muito nestas fontes e tenho muito apreço e
devoção por Patativa do Assaré.
Todavia, já existem importantes estudos acadêmicos sobre a produção
feminina na literatura de cordel, merecendo destaque a pesquisa da
professora da Universidade Federal do Ceará, campus Cariri,
Francisca Pereira dos Santos, (Fanka) que também é cordelista e tem
trabalhos publicados sobre esta questão. Esta pesquisadora já
cataloga mais de 30 mulheres produtoras, sendo que a maioria delas
mora no nordeste do país. Em sua obra intitulada Romaria de Versos
sobre mulheres cearenses autoras de cordel, ela destaca as poetisas
Arlene Holanda, Mana, Josenir Lacerda, Maria Anilda, Maria do
Rosário, Maria Ivonete, Maria Luciene, Maria Matilde, Maria Vânia,
Bastinha e eu.
Com vistas também a provocar um debate sobre este problema há um
cordel meu intitulado MULHER TAMBÉM FAZ CORDEL, que pode ser
acessado em nosso
blog. Neste cordel contamos a
história do início da produção escrita de cordel pelas mulheres no
Brasil, mostrando que a primeira a publicar um folheto teve que
assinar com pseudônimo masculino, nas primeiras décadas do século
passado. Todavia, como as maioria das mulheres fora condenada ao
analfabetismo por muito tempo, isto não quer dizer que elas não
faziam poesia. Minha avó mesmo, como já disse, sempre recitou e
sempre criou, porém no campo da oralidade, já que este era o seu
único e possível lugar de manifestação.
Existem muitas mulheres escrevendo cordel hoje no Brasil, dentre as
quais eu me incluo e sou apresentada como um diferencial, mas não
apenas por ser uma mulher escrevendo cordel, mas por ser uma mulher
que escreve cordel sobre temáticas femininas, inclusive
visibilizando, por este veículo, as mulheres lésbicas.
clique na figura para ouvir o cordel
UOO. Agora nos fale um pouco sobre como se envolveu com cordel.
Bom, eu sou neta de D. Maria José e sobrinha de Zé Alexandre. Ela
poeta, cordelista, cega e analfabeta que “dizia” sua poesia e a de
outras pessoas que ela escutou durante a toda a vida. Faleceu aos
noventa anos, em 2003, sem nunca ter aprendido a ler ou escrever.
Foi a primeira mulher a fazer versos que eu conheci. Escutei muito
ela recitar. Li muitos cordéis pra ela também.
Meu tio Zé Alexandre
mora também em Juazeiro do Norte, é um grande poeta, faz rimas
primorosas e muito me influenciou com seus rabiscos e sua
sensibilidade poética, já que ele quase não publica. Sempre li para
meus parentes da zona rural que, em regra, ou não sabiam ler ou liam
muito pouco, e tinham na literatura de cordel uma atividade de
deleite ou mesmo um veículo de notícias. Comecei lendo, depois fui
produzindo e hoje tenho vários títulos publicados e dois deles
premiados.
UOO. Quantos cordéis você já compôs e onde os divulga, além de por
seu blog Cordelirando?
Tenho mais de quarenta cordéis publicados. Mas tenho muito mais
compostos. Nem sempre posso publicar. Nem sempre publico logo que
escrevo. Costumo divulgar nos eventos, faço doação para
pesquisadores, admiradores e outros cordelistas. Nunca escrevi
pensando que as pessoas pudessem apreciar o meu texto porque é um
texto muitas vezes polêmico, carregado de paixão e luta, muito
intertextual. Através do meu cordel eu dialogo com várias outras
literaturas e formas de arte. Escrevo também cordel pensando na
música, na cantoria e no teatro, enfim. Tenho o blog intitulado
Cordelirando onde publico desde
2007. É um espaço de divulgação.
Mas eu gosto muito também do cordel
impresso, da capa, do formato, enfim, da estética real. Recentemente
uma grande cantora paraibana, chamada
Socorro Lira, resolveu, estimulada
por duas grandes amigas em comum, musicar meu cordel intitulado
MARIA DE ARAÚJO E SEU LUGAR NA HISTÓRIA (ou a Beata Beat Cult). Este
meu cordel trata da história de uma beata lá de Juazeiro do Norte
que ao receber a hóstia em comunhão protagonizou um “milagre” que
fez com que o Padre Cícero se tornasse o grande taumaturgo do
nordeste.
O fato é que a beata fora secundarizada na história, e eu
busco narrar o acontecido, num texto teatral irônico, provocativo,
dramático, que mistura bendito e embolada, dando visibilidade a esta
mulher que era e ainda é um ser marginal na grande história da minha
terra. Pois bem. Socorro Lira, ao musicar este cordel, sob a direção
da baiana Gal Meirelles, gravou um DVD que vai ser lançado até o
final deste ano, junto com uma coletânea de 8 cordéis meus. O
projeto recebe o título de dois outros cordéis meus: CORDELIRANDO e
MULHER TAMBÉM FAZ CORDEL.
Além disto, atores juazeirenses, tais como Joaquina e André de
Andrade têm feito leituras dramáticas do meu trabalho, com
apresentação pública em projetos patrocinados pelo Banco do Nordeste
do Brasil-BNB. A poetisa potiguar
Dath Haak também recitou e
disponibilizou na internet três dos meus cordéis, dentre eles
Lesbecause e do Direito de ser gay.
Eu mesma, apesar da timidez, sempre recito em rodas de amigos e às
vezes antes de ministrar algumas palestras.
UOO. Qual o tema principal de seus cordéis? E quanto eles se
diferenciam dos cordéis tradicionais?
Veja, no ano 2000 foi criada a Sociedade dos Cordelistas Mauditos,
em Juazeiro do Norte. Esta turma é composta por jovens poetas de
grande entusiasmo. Integrei esta Sociedade desde o seu nascedouro.
Mas antes disto, desde 1996, eu já publicava. Escrevo há bastante
tempo. Tenho cordéis sobre variados temas. Na sua totalidade são
sobre questões marginais e periféricas. A maioria sobre mulheres,
relações de gênero, homossexualidade, cidadania e afins. Também já
falei de assédio moral, velhice, analfabetismo, violência, saúde,
política, etc. Mas a temática preferencial é a das mulheres e
homossexuais.
Antes de ser da Sociedade, eu já falava das temáticas
que os cordelistas mauditos abordam. Pensamos que a diferença
entre nós e os ditos tradicionais se dá tanto na forma quanto no
conteúdo. Na forma, inovamos com a capa, que além da xilogravura
usamos colagens, desenho, foto, etc. E às vezes ilustramos até as
folhas internas do cordel. No conteúdo, procuramos abordar de modo
crítico, denunciativo, propositivo e emancipatório questões que os
cordéis tradicionais tratam no sentido de manter o status quo.
Demonstramos a questão da violência contra a mulher, do discurso
homofóbico, machista, racista, sexista presente em muitos dos
clássicos da literatura de cordel.
Atualmente nossa ‘sociedade’ tá
meio dispersa porque os cordelistas precisam trabalhar para
sobreviver, mas mesmo assim eu gosto de destacar o valor dos meus
colegas. Poetas como Hélio Ferraz, Fanka, Soneca, Batata, Orivaldo,
Nicodemos, dentre outros, são os poetas ditos mauditos do
Cariri. E são muito bons. Logicamente que de tão mauditos têm
divergências entre si, mas isto faz parte da proposta. Eu tenho sido
a que mais tem produzido e a que antes da sociedade já tinha este
espírito de poesia social e crítica. Fizemos um manifesto que dizia
mais ou menos assim: A nossa comunicação se dá através da poesia
de cordel, traço da nossa identidade nordestina. Odiamos tecnicistas
sem sentimentos literários. Somos contra o lugar comum da
globalização que cria signos massificantes e uniformiza o
comportamento estético. Nosso movimento movimento pretende, sob uma
ótica intertextual, utilizando vários códigos estéticos,
redimensionar a literatura de cordel para um campo onde todas as
linguagens sejam possíveis. Não somos nem erudito nem popular, somos
linguagens. Entramos na obra porque ela está aberta e é plural.
Somos poeta e guerreiros do amanhã. A poesia escreverá, enfim, a
verdadeira história. Viva Patativa do Assaré e Oswald de Andrade.
De 2000 para cá eu andei revendo algumas questões. Na verdade, não
sou exatamente eu ou os mauditos que nos apresentamos como os
“diferentes”, são os “iguais” que nos acusaram de não saber fazer
cordel, de trair o cordel tradicional. Muitos sustentam que nós não
fazemos literatura de cordel porque nós estamos quebrando tabus e
questionando dogmas do cordel. Mas isto já é tão previsível que meu
cordel tem sido acusado de muitas coisas. Eu mesma já sofri ameaça
até de morte por causa dos cordéis, já fui ameaçada de processo. Mas
eu vou e faço outro cordel ou então parafraseio o poeta Pessoa e
indago: viver é preciso? Viver para mim só é possível e só é
necessário fazendo poesia, vivendo poesia, dizendo poesia. Enfim,
cordelirando....
UOO.
Você já compôs cordéis específicos sobre a questão homossexual e
lésbica. Quais são?
Compus vários cordéis ditos gays, sim. Falo sobre o que me mobiliza,
sobre o que me diz respeito. Tudo que é humano nos diz respeito,
disse o filósofo. Os homossexuais, homens e mulheres, dizem que sem
eles os direitos não são humanos e eu poetizo: Sem os
homossexuais não existe humanidade, não existe poesia. Então, eu
escrevo sobre isto, sim.
Meu primeiro cordel ostensivamente gay eu
comecei a rabiscar sozinha e aí eu resolvi convidar uma cordelista
da sociedade dos mauditos, a Fanka, para produzir comigo, em
parceria. O nome deste cordel é A HISTORIA DE JOCA E JUAREZ, que
versa sobre um romance que se passou em 1913, na cidade de Juazeiro.
Trata-se de um amor proibido entre um zabumbeiro e um jardineiro do
Padre Cícero. Procuramos retratar o discurso da igreja, a hipocrisia
social e intercalamos personagens fictícias com figuras reais. É um
cordel romanceado publicado em 2001.
Mas existem muitos outros que
escrevi sozinha, tais como O GRITO DOS MAU ENTENDIDOS que versa
sobre uma assembléia de homossexuais, onde eu brinco com personagens
do mundo artístico e falo de um evento onde se discute a
discriminação e a violência contra gays, tudo intertextualizando com
músicas que tem um sentido gay, etc. Tem outro chamado
O QUE É SER MULHER?
que não é unicamente gay, mas provoca uma discussão sobre as
sexualidades e há uma passagem em que eu pergunto se um homem não
pode ser mulher ou se uma mulher não pode amar outra mulher e tal.
Tem um outro intitulado DIA DO ORGULHO GAY, no qual eu narro a
origem da data do orgulho. Tem um que se chama DO DIREITO DE SER GAY (ou condenando a homofobia) que é próprio para o teatro e que foi
recitado pela poetisa Dath Haak.
Tem um que se chama LESBECAUSE onde
eu faço uma ode às lesbianas. Tem o que se chama MULHERES FAZEM,
onde eu brinco com possibilidades... E, por último, MARIA, HELENA que
narra um romance entre duas mulheres do sertão, devotas, simples e
lésbicas. Todos estes cordéis podem ser acessados no blog ou então
consultados no acervo da cordelteca do SESC de Juazeiro do Norte.
clique na figura para ouvir o cordel
UOO. Os cordéis têm uma função didática, entre outras. Como tem sido
a reação do público hétero aos cordéis de temática homo?
Com efeito, o cordel tem uma função didática, educativa, sim. Para
se ter uma idéia, muitas pessoas no Ceará foram alfabetizadas a
partir do cordel. A literatura de cordel foi a minha primeira
literatura. Todavia, muitos textos de cordel também podem trazer
grandes problemas para a formação, para a educação das pessoas. Li,
na infância, um cordel chamado A Peleja do Cego Aderaldo com Zé
Pretinho. Este cordel reproduz muito preconceito, é baseado em
estereótipos de cego imprestável, inútil e de negro sujo, incapaz...
Às vezes me torno antipática denunciando estes “clássicos” que
muitas vezes são enaltecidos até mesmo por acadêmicos, mas que na
verdade são textos extremamente nocivos à idéia de respeito às
diferenças, etc. Tenho recebido muitos elogios e muitas críticas
também não apenas pelos cordéis de temática homossexual. Mas também
tenho recebido prêmios e tenho sido alvo de muito interesse por
parte de pessoas que acham que faço um trabalho legal. Na verdade a
minha literatura, ou o meu “cordelírio”, tem cumprido uma função
política muito forte, assumida e declarada.
Eu realmente gosto e me
alimento deste tipo de arte que, infelizmente ainda é bastante
marginal, secundária, periférica, menor e desimportante nos círculos
e circuitos literários. Por meio dela, eu cuido de questões também
consideradas ácidas, inconvenientes, incômodas, etc. Porém, alguns
pesquisadores no Brasil já estão investigando academicamente, em
nível de especialização, mestrado e doutorado o meu trabalho. Ganhei
dois prêmios nacionais de literatura de cordel que me foram
concedidos pela Fundação Cultural do Estado da Bahia-FUNCEB nos anos
de 2005 e 2006, respectivamente. Em Juazeiro, cidade onde moro, os
gays recitam meus cordéis antes de abrir palestras, debates, etc. Há
artistas dramatizando meus textos, inclusive o cordel DO DIREITO DE
SER GAY, que é um monólogo num tribunal do júri.
Muitos dos meus
textos são feitos para o teatro. Então, a temática homo tem chamado
a atenção do público, sobretudo pelo fato de vir a partir da
literatura de cordel. A Revista Cult, de 2003, salvo engano, traz
um dossiê sobre literatura gay, onde se indaga se é uma bandeira
política ou um gênero literário. O professor Gilmar de Carvalho,
grande conhecedor da literatura de cordel, tem um texto nesta
revista onde ele fala da nossa produção, cita inclusive meu
trabalho. Então, em geral, tem sido boa, algumas pessoas estão
considerando a nossa produção de cordel como um todo e em especial
os de temática gay, lésbica, enfim, homossexual.
UOO.
Além de elaborar cordéis, você desenvolve outras atividades em prol
da cidadania LGBT?
Veja, sou professora do departamento de Direito da Universidade
Regional do Cariri-URCA, fiz opção por ser uma advogada popular, com
formação em direitos humanos, estudos gênero, feminismos, mulheres,
sexualidades. Concluí em 2002, uma dissertação de mestrado
intitulada O Princípio da Igualdade Jurídica e a Discriminação
contra Homossexuais: ações e omissões dos poderes públicos no
Brasil, pela Universidade Federal do Ceará.
Elaborei os estatutos de
duas ONGs Gays no Cariri cearense. Dei assessoria jurídica gratuita
a estas entidades, ajudando, portanto, a construção da cidadania LGBT numa região onde há um forte componente de machismo e
homofobia, mormente em face da tradição religiosa. Realizei inúmeras
palestras, participei de muitos debates, escrevi e ainda escrevo
textos sobre o assunto, publiquei na Revista Artemis, etc. Procuro
dar minha contribuição.
Estive em Cuba dialogando com mulheres
lésbicas e heterossexuais sobre gênero, direito, etc. Sou também um
ser cuja sexualidade está em permanente construção. Portanto, não
dou uma contribuição desinteressada. Eu, de alguma forma, também sou
gay, minhas idéias, meu modo de ser e estar no mundo é marginal, é
questionador, é periférico, é gay, por excelência.
UOO. Muita gente vem reclamando hoje em dia da burocratização do
Movimento LGBT, apontando seu distanciamento da população LGBT e
propondo atividades artísticas como forma de fazer política por uma
via menos chata. O que você acha disso?
Eu penso que é por aí. A aproximação e até a própria (con)fusão do
movimento LGBT com os partidos e com o poder institucionalizado
muitas vezes engessa, sufoca, imobiliza. A realidade tem demonstrado
isto. Não sou uma pessoa anti-partido, ao contrário, já fui até
candidata ao governo do meu Estado nas eleições de 2006. Aliás, a
única a defender publicamente a criminalização da homofobia e a
união entre pares do mesmo sexo naquele habitat. Estou, como
muita gente neste país, com um pé atrás com esta política que
vivenciamos, que nos fora vendida com um discurso e que se nos
apresenta de modo torto, obtuso, enfim.
Tampouco faço um discurso da
arte pela arte. Penso que política e poesia é reflexão e ação
constante. A discussão de tudo o que interessa aos seres vivos deve
ocupar estes espaços. O discurso pela veia artística é um discurso
prazeroso. Costumo dizer que faço uma poética-político-exótico-erótica.
Não faço nada sem o prazer de
fazer e de viver. Não suporto o amordaçamento da criatividade em
nome de uma ideologia, de um edital, de uma campanha, de uma
candidatura, de uma burocracia que visa domesticar e roubar a radicalidade da luta pelo respeito ao ser humano. Penso que podemos
avançar dialogando com todos e todas que desejam um mundo melhor sem
nos algemar, sem nos impedir de grita contra toda e qualquer espécie
de opressão, institucionalizada ou não.
UOO. Por fim, deixe uma mensagem para nossas leitoras.
Quero dizer que para mim foi um prazer falar para vocês. Quero
seguir dialogando. Tenho um texto que diz que Um outro direito é
possível. Tento construir um outro olhar sobre o mundo
jurídico, e também sobre a arte em geral, sobre a literatura e em
especial sobre a literatura de cordel. Ou seja, partilho com vocês
da idéia de que é possível lançar UM OUTRO OLHAR sobre tudo,
mormente sobre as sexualidades. Então, me encho de entusiasmo com o
contato com gente que quer ser feliz, que quer amar e que pensa que
a arte pode ser um modo de se publicizar isto. Obrigada por me
ajudarem a seguir cordelirando sempre e mais. Um abraço afetuoso
para todas.