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UOO:
Giovane, primeiro, um pouco de
você, de sua formação. Qual sua idade, sua orientação sexual, sua formação acadêmica como dançarino ou arte-educador, quando começou a dançar...
Giovane Salmeron (GS): Sou
paulistano, com família na zona leste da capital, mas há 12 anos
vivo na região central da cidade. Nasci em 09 de março de 1978 e
tive já as minhas histórias com as meninas, o que me fez amadurecer
e completar, neste ano, 12 anos de relacionamento com outro homem,
com quem a cada dia vivencio novidades (mas a dança ainda não o
tocou...). Sou Licenciado em Artes Plásticas pela Escola de
Comunicações e Artes da USP, Pedagogo pela Universidade Ibirapuera e
Especialista em Dança e Consciência Corporal pela FMU/SP. Na Dança,
além da Pós-Graduação, me graduei no quinto nível da Royal
Academy of Dancing of London – Ballet Clássico, por meio do
Estúdio de Dança Marina Lambertti, na região do aeroporto de
Congonhas. Na época, eu tinha 21 anos e, assistindo a um vídeo de
Cats (o musical da Broadway) eu senti que, mesmo vindo de uma
família que não valorizava a Dança, eu seria capaz de dançar e fui à
luta. O problema era conseguir uma bolsa de estudos, então, com as
páginas amarelas na mão, fui entrando em contato com várias
academias até que a Marina me aceitou. Sou muito grato à ela por
essa atitude e por me incentivar a iniciar uma turma na época da
Dança de Salão.
Com
relação à formação em Danças Sociais, entre workshops, vídeos e
eventos, tomei aulas na academia de Andrey Udiloff em Pinheiros (a
quem sou muito grato apesar de os nossos projetos serem
diferenciados) e no estúdio da Stella Aguiar (que além da gratidão
foi e tem sido uma ótima parceira de trabalho). Quando do auge do
Tango, tive aulas com Graziella (professora das domingueiras de
Tango do Café Piu-Piu) e, claro, com muitos outros professores e
estúdios em Buenos Aires.
Atualmente, sou professor de Danças Sociais particular, atendo
grupos em domicílio, ministro aulas no Núcleo Criativo e atuo como
Personal Dancer em São Paulo, interior, Rio de Janeiro e Buenos
Aires.
UOO: E qual sua trajetória na área
de dança e mais especificamente da dança de salão? Que projetos já
realizou?
GS: Na Dança de Salão, iniciei
numa academia de Fitness, na rua Augusta, em São Paulo, que em muito
me auxiliou no início da carreira, trabalhando posteriormente com
grupos particulares na ECA/USP, Academia Movimento & Dança na Vila
Buarque, Interlagos, UNIB, realizei em 2007 o 1º Retiro de Dança e
Consciência Corporal que terá sua segunda edição em 2009, SESC
Paulista, SESC Consolação (ambos em parceria com Stella Aguiar),
Pricewaterhouse & Coopers (também numa parceria com Stella) e,
agora, além dos particulares, tenho me dedicado ao meu Projeto mais
antigo e atual, o Núcleo Criativo, no qual desenvolvo minhas
pesquisas sobre condução e dança entre parceiros de mesmo sexo.
UOO: Como você situa a dança de
salão hoje em termos de gosto popular: abrange todas as faixas
etárias ou é uma atividade mais dos apreciadores dos ritmos
clássicos (forró, samba, bolero...)?
GS:
As Danças Sociais, sob minha perspectiva, estão hoje divididas,
basicamente, entre dois públicos: os jovens, que se apropriam da
dança como linguagem e buscam uma virtuose técnica, competitiva, em
que imperam os modismos (Forró Universitário, Salsa, Zouk e mais
atualmente o Tango Eletrônico), e os adultos, de meia idade ou que
passam pela melhor idade que, consideram a dança momento apropriado
para a troca de idéias, para vivências saudosistas, seguindo a
etiqueta e um código social mais tradicional.
De
certa maneira, antes de lidarmos com a diversidade sexual, é preciso
compreender que, a Dança de Salão, enquanto prática social, ainda é
incipiente no Brasil e que, estamos agora, colhendo os frutos de 20
anos atrás, quando a Lambada incitou milhares à prática da Dança à
dois e o interesse pelo aprendizado técnico.
Hoje, o panorama que se apresenta, reserva aos jovens uma
performance por vezes exagerada, em detrimento da etiqueta, das
regras sociais por eles consideradas antiquadas e aos adultos, mais
tradicionalistas, o fardo do satirizado “Baile da Saudade”, onde se
saúdam aos clássicos, em especial o Bolero, o Fox-Trot e a Valsa.
UOO: Em outras atividades que mexem
com o corpo, há necessidade de um certo condicionamento físico
prévio. Você faz esse condicionamento em suas aulas? Pessoas de
todas as idades podem dançar?
GS:
O que costumo fazer, quando o grupo corresponde ao estímulo, é um
aquecimento, acompanhado por uma música de prática, dentro da
temática da aula, tratando de aquecer as articulações, alongar a
musculatura e relaxar os pontos de tensão mais evidentes para
favorecer a sintonia com a atividade. Costumo dizer que se deixa o
mundo lá fora, desliga-se os celulares para curtir aquela única hora
da semana que é só sua e de mais ninguém.
Quanto à faixa etária, não há limites. Quando recebo um novo aluno,
trato de perguntar se há algum impedimento físico que limite a
atividade ou se há uma predisposição à labirintite, o que limita os
giros a serem realizados. No mais, tenho uma regra, sempre
superestimar os meus alunos. Claro. Faço sempre mais do que eles
acham que podem e utilizo informações rítmicas, visuais e sensoriais
para auxiliá-los em sua superação.
UOO: Quantas aulas em média são
necessárias para fazer bonito na pista? Qual o ritmo mais fácil e o
mais difícil de aprender?
GS:
No geral, com aproximadamente 03 meses de aulas ininterruptas, uma
vez por semana, já estimulo os alunos à sair para dançar, em grupo.
Com 06 meses, a base está firme e surgem as figuras intermediárias.
Seguramente, após 01 ano assíduo de aulas, a segurança e a
criatividade tornam-se prazer na dança.
Quanto à questão rítmica, as modalidades mais fáceis, ao contrário
do que acreditam os aprendizes, são aquelas mais rápidas e
frenéticas, recheadas de giros, como o forró, rock, e o soltinho,
onde há mais possibilidade de improviso. Já o bolero, a rumba e o
tango, por ter uma marcação mais definida, exigem mais paciência e
concentração dos alunos. Quanto mais lenta a música, aumenta o
desafio de manter-se em sintonia com o parceiro.
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UOO: Quando decidiu iniciar um
trabalho específico de dança de salão com a população LGBT?
GS:
Quando em viagem a Buenos Aires, fui convidado à dançar por um
senhor que ao final me apresentou a esposa. Neste momento pude
perceber que, focalizando em novos objetivos que não a sedução, a
busca de um parceiro sexual, a dança pode ser objeto de prazer entre
duas pessoas de mesmo sexo. Iniciei então uma pesquisa e participei
do 1º Festival Internacional de Tango Queer de Buenos Aires,
em 2007, quando então pude perceber que o mundo está aberto à esta
novidade, principalmente a Europa e América do Norte.
UOO: Existe uma diferença na
abordagem da dança de salão para os casais homo e hétero?
GS:
Sim. Em primeiro lugar, a questão social da condução. Homens são
condutores naturalmente aceitos e mulheres, como na sociedade, devem
ser conduzidas, orientadas.
Quando surge um casal homo, em primeiro lugar é preciso definir se
há um condutor e um conduzido ou se ambos farão os dois papéis. Acho
mais interessante a segunda opção, o que torna o trabalho mais
demorado e instigante, uma vez que, a cada novo movimento, ambos
terão de aprender as duas possibilidades condutivas.
UOO: Fale um pouco de seu projeto
Duco et Ducitur (do latim “conduzo e sou conduzido”),
de como surgiu, de seu objetivo.
GS:
Surgiu durante a elaboração do Projeto de Especialização em Dança e
Consciência Corporal da FMU/SP, quando observei e pontuei práticas
sociais de dança em São Paulo e Buenos Aires. Então, percebi a
necessidade de ensinar aos casais homo a linguagem social da dança.
Outras iniciativas surgiram por parte de outros profissionais, mas
creio que os problemas e o êxito desta atividade está na integração
dos casais depois do aprendizado. Eles participam das aulas
assiduamente, mas na hora de dançar de fato, em locais apropriados,
não se sentem aceitos, impelidos, apoiados.
Por
exemplo, um puxão de orelha nas meninas que freqüentam o Café
Vermont Itaim: há nessa casa uma das pistas mais aconchegantes que
já vi. Durante a apresentação das bandas, com hits dançantes, a
pista fica vazia. Apenas quando o DJ executa a seleção eletrônica é
que a pista ferve. Por que motivo? Desta maneira, vamos sedimentando
a idéia de que gay só curte Tecno, Bate-estaca, o que não é verdade.
Quando observamos os rapazes que freqüentam o ABC Bailão, percebemos
que, sob o pretexto da música eletrônica, muitos deles se deixam
embalar pela dança a dois durante as seleções de Forró, Bolero,
Vanerão, Rock e Samba, oferecidas pela casa.
O
Projeto Duco et Ducitur, vem possibilitar não apenas uma
revisão metodológica do ensino da dança, mas a prática em locais
reconhecidos, por meio da inserção destes casais nos espaços
tradicionalmente direcionados à dança de salão, ensinando a
linguagem corporal da dança contextualizada aos espaços onde ela de
fato acontece.
UOO: Em outubro deste ano (2008),
você inaugurou seu espaço de trabalho Núcleo Criativo Giovane
Salmeron em São Paulo. Qual a proposta desse espaço, além da
promoção da dança de salão naturalmente?
GS:
Oferecer a possibilidade de aprendizado das Danças Sociais sob a
perspectiva da Diversidade, ensinando homens e mulheres ambos os
papéis condutivos na Dança, estimulando a troca de papéis e o
desenvolvimento de novas movimentações baseadas naquelas já
tradicionais.
Além disso, realizar encontros, workshops, práticas e claro,
propiciar a sociabilização dos alunos.
UOO: Além do trabalho no Núcleo
Criativo, que outros projetos você vem desenvolvendo e que pretende
encaminhar em 2009?
GS: Como disse, sou Personal Dancer (profissional contratado para
dançar com aqueles que não possuem um par fixo ou querem treinar a
linguagem da dança) e à cada dia tenho ampliada a minha gama de
clientes e destinos, entre eles Rio de Janeiro, Vitória, Buenos
Aires, Capital e interior, além de eventos e navios temáticos
voltados ao público dançante. Ainda que apenas 01 deles seja homem,
espero que outros parceiros surjam durante a minha trajetória.
Em
2009, pretendo oferecer no Núcleo Criativo, workshops, espaços para
discussão sobre diversidade, dança e sociedade, projeção de filmes
temáticos, debates e claro, muita prática de dança. Além disso,
organizar o 2º Retiro de Dança e Consciência Corporal, repetindo o
sucesso da primeira edição em 2007.
Além disso, à cada dia estimular mais e mais casais homoafetivos a
desenvolver a técnica e o prazer pela dança a dois ou a duas.
UOO: Você declarou em artigo que os
casais de mesmo sexo já vem sendo aceitos com mais naturalidade em
espaços de dança de salão convencionais. Poderia citar alguns deles
não só em São Paulo como em outras cidades?
GS:
Naturalidade é a palavra que utilizei por fazer parte do grupo e ter
muita firmeza em impor a minha presença nestes locais. Está claro
que, em todos eles, no primeiro momento, há um impacto (muito mais
freqüente quando dançam dois homens juntos), mas que, como costumo
dizer, dura 05 minutos ou duas músicas (é o tempo que leva para
aqueles que estavam no bar ou no banheiro retornar e reiniciar a
discussão).
Em
São Paulo, locais como as domingueiras do Clube Homs, organizadas
pela figura simpática de Nayah, o Havana Club, o Café Vermont Itaim,
o ABC Bailão, o União Fraterna, são locais onde já estive e claro,
guardadas as proporções, superei os 05 minutos.
É
difícil, não vou ocultar a verdade. Numa dessas casas, a mais
badalada, onerosa e requintada, tentaram nos fazer parar e sair.
Conversando com superiores, fomos convidados a permanecer e,
infelizmente, a gerência da casa foi substituída. Utilizei-me, em
email de agradecimento à Gerência Geral do estabelecimento, da lei
Nº 10.948, DE 5 DE NOVEMBRO DE 2001 e por fim o funcionário foi
demitido. Não era a minha intenção, mas de fato, não busco
tolerância, busco respeito. Se tiver de ser assim, assim será.
UOO: Você conhece outros trabalhos
análogos ao seu em outras cidades brasileiras que pudéssemos
indicar?
GS:
Sei que no nordeste, em especial Bahia, há muitos pesquisadores
envolvidos com questões afins, mas não há ainda uma proposta que una
pesquisa e meto dologia numa única empreitada. Em São Paulo, há
academias que se propõe à receber casais homossexuais em condições
especiais, porém há sempre a questão de onde dançar depois do
aprendizado.
A
minha busca não está apenas no ensino, está na contextualização. Nós
somos o “novo”, a “novidade” há muito tempo. Agora é hora de sermos
apenas parte da realidade. Dentre os objetivos do Projeto Duco et
Ducitur, estão as ações educativas direcionadas aos estabelecimentos
voltados às Danças Sociais, para a recepção de casais homoafetivos e
troca de papéis condutivos. Planejo para 2009 a distribuição de uma
cartilha que versará sobre etiqueta na dança e respeito às paridades
diferenciadas.
Quanto às iniciativas voltadas ao público LGBT, cito o Festival
Internacional de Tango Queer, que acontece em Buenos Aires durante o
segundo semestre (entre novembro e dezembro), que teve a sua segunda
edição entre 01 e 07 de dezembro de 2008 e tem gerado uma série de
outras ações não apenas na Capital Argentina, mas na Suécia,
Austrália, Japão, Canadá, Reino Unido, Holanda e Estados Unidos. No
Brasil, (ainda) não há repercussão, devido à resistência dos latino
americanos a aderirem ao movimento. Na edição de 2007, apenas 01
latino americano (eu) figurava entre europeus, canadenses, japoneses
e americanos.
UOO: Por fim, Giovane, deixe uma
mensagem para nossas leitoras e leitores. E muito obrigada pela
entrevista.
GS:
Como mensagem, tenho em mente a imagem do encontro realizado junto a
Um Outro Olhar no prédio da Ação Educativa, na Consolação, em 19 de
agosto de 2006, quando mulheres de muitas cores, muitos anseios e
muitos amores se reuniram para dançar, para extravasar, para viver.
Espero encontrá-las em breve, para o despertar de novas
possibilidades, de novos desafios e descobertas.
A Dança, enquanto prática social, nos dá a sensação de pertencimento
e estabilidade de que tanto precisamos e merecemos.
Pense nisso! Dançar não é o bastante. Tolerar não é o bastante. Amar
o próximo, talvez o seja. Um forte abraço!
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