"consigo
me lembrar do pavor que muitas tinham quando encontravam sempre um
camburão nas proximidades do Ferro’s Bar e dos nossos locais de
frequência, em qualquer lugar disponível em que tentávamos
qualquer contato físico e intelectual ...e das inúmeras vezes que
vi a policia entrando nos bares para afrontar e intimidar os
entendidos da época" (Secel).
Cheguei no lugar do encontro antes da hora. Na
frente do Teatro Municipal, do lado do Mappin. Nos encontramos com
os olhos. Sem abraços e sem contatos. Não tínhamos dúvidas sobre a
importância da manifestação. Só os nossos olhares mostravam o medo
e as esperanças que moravam em nós. Nada podia dar errado. Era
como tirar fotografia de um casamento. A ocasião era quase única e
talvez irrepetível. Naquele tempo o lema era: "segurar a barra',
"não deixar cair", "não sujar" "ir à luta”, em síntese, deixar do
melhor modo possível o dia 13 de junho. Não estávamos ali para
festejar Santo Antonio nem o dia dos namorados.
Contagiadas pelo medo, cada gesto era medido. Tínhamos que colher
o momento crucial e estar no lugar certo para não só seguir um
movimento, porém - mais do que isso - criar o evento. Existia uma
fórmula? Não sabíamos. O importante e necessário era compreender
como se mexer dentro da cena. Inventávamos. Com panfletos
tentávamos explicar porque estávamos ali provocando desconforto e
incomodando os passos cansados e inseguros das pessoas.
Nós estávamos ali contra a polícia e a favor das
vítimas. Contra o abuso dos policiais, que ofendiam nossos
sentimentos íntimos, feriam os corpos e nos turbavam moralmente.
Estávamos ali para agir contra um modo criminoso que frustrava o
desejo e tentava nos paralisar com o terror, com a violência,
transformando-nos em vítimas do medo. Porque as ofendidas eram as
mulheres e as trans que do sexo viviam. E que ninguém defendia
porque iam contra as regras do pai branco que queria dominar sem
contrastes, eliminando fisicamente as diferenças e desigualdades.
Nós estávamos ali para ir contra a marginalização, a misoginia e a
morte. Contra as cicatrizes e a infecção do medo.
Decididamente tínhamos que estar prontas. Colocando-nos na frente,
para poder enquadrar a praça ou a rua. Enquadrar tudo. Víamos a
praça lotada, a rua com os carros que passavam, e o Mappin que
descarregava na calçada um monte de gente com saquinhos brancos e
verdes e sacolinhas. No bolso da minha calça larga, eu também
tinha uma para guardar nosso estandarte.
Lá em cima nas escadas, com os nervos à flor de pele, ofegantes,
eu e a Rosana. Ela me ajudava a desembrulhar a faixa que íamos
usar dali a pouco e que por horas estava me enfaixando todo o
tórax como a conter uma grande explosão. Cuidadosa, desenrolava do
meu corpo a faixa e meio sorrateiramente a fazia escorregar até o
chão molhado. Cheirava a tinta fresca e grudava um pouco também.
Era feita de algodão e escrita com tinta esmalte e pincel (ainda
não se usava o spray e por isso demorava muito para secar). Teca,
Míriam e Conceição tinham trabalhado durante a noite na confecção.
Ficou muito bonita, saiu um ótimo trabalho. Era longa, mas se lia
muito bem.
Me enrolavam e desenrolavam a faixa na barriga
sempre quando tinha uma manifestação. E no final da passeata
também era eu que levava a faixa para casa, na barriga ou toda
amassada em uma sacola. "Sem dar bandeira" e nem mostrar o meu
pânico, aproveitando do meu corpo redondo e que disfarçava bem.
Fazia o meu papel de "bala embrulhada'.
Quase desmaiando pelo cheiro que emanava da faixa e
pela preocupação de ser descoberta, ia pela cidade como uma nova
Kamikaze, lutando contra a vontade de abrir as vestes, na rua ou
dentro do ônibus lotado, para mostrar que não tinha medo de nada e
nem de ninguém. Não era verdade. O cheiro da tinta entrava no meu
cérebro. E claro que eu estava morrendo de medo. Estava carregando
um símbolo proibido. Vivíamos traumatizadas pela antecipação de um
trauma.
Chegando antes:
-Vai, sobe lá e fala!. - Quem vai ler? - Lê rápido!
Nesse jogo, sem diretor, nós que tínhamos chegado cedo tomamos o
lugar: - Quem lê? – Quem toma conta?- Quem avisa se eles
chegarem?- Quem dá o sinal?- O que se faz se...?
A polícia estava espreitando, e os infiltrados se viam pelos
óculos escuros e o ar de vazio em volta deles. A visão era boa das
escadarias. Um milhar, nós estávamos ali em mil. Poucos? Tantos?
Esperamos ainda? O que? Quem? Partimos? Começamos? A notícia tinha
circulado.
Era um milhar com um objetivo. Sim, nossos corações jovens, cheios
de paixão e esperança nos impeliam a partir. As motivações eram
claras, a complicação estava em pô-las em prática, agir, dirigir.
Faltava um maior conhecimento de ações públicas. Só a
sensibilidade, nessas ocasiões, não ajuda, não basta. Não tinha
nada de codificado ou de habitual. Quando começar?
Mas de repente - como telecomandadas - começamos a
marcha e entramos no meio da multidão que, saindo das lojas e
escritórios com os guarda-chuvas abertos, avançava decidida, na
certeza de ter que enfrentar uma longa estrada. Pegar o primeiro
ônibus ou o metrô para chegar em casa o mais cedo possível, antes
da novela das oito, e finalmente esquecer o mundo. Entramos aí,
nesse meio. Como um cordão trançado, simples e sem dar na vista.
Depois das dezoito. Entramos nesse meio para aumentar a impressão
de que éramos muitos. Aumentar a pressão. Dar uma impressão!
Tínhamos que conquistar gente para engrossar nossas
fileiras, para mostrar que éramos muitos mais e ainda mais. As
pessoas indo embora no tradicional e seguro rush, e nós ali
para frear, bloquear, estancar, mas sem querer ser invasivas.
Queríamos demonstrar que muita gente estava mobilizada, fazer
parecer que éramos mais do que éramos, que tinha chegado a hora de
reagir ao abuso de poder, que finalmente todos tinham acordado do
pesadelo.
Abrimos a faixa e começamos a dar os braços para
fazer as pessoas andarem mais devagar, como se disséssemos:
"Assumimos esse risco para que reflitam". Abraçadas seguíamos
fechando a rua. Bloqueando os passos rápidos e desesperados de
cansaço. Assustando os que, conformados, nos seguiam até lerem
distraídos sob a própria cabeça: "Contra a Violência policial.
Ação Lésbica Feminista". Algumas tentavam passar por baixo ou
romper a nossa barreira natural de corpos. Outras nos empurravam
para mostrar que não tinham nada a ver com aquilo. ”Não sou
sapatão". Empurrão e resignação. Sabiam que logo lá na frente
subiriam no ônibus, e tudo teria terminado. Era uma barreira, e a
barreira no começo era muito sólida.
Estávamos na Avenida São João, e fomos subindo e parando o
trânsito. A adrenalina cadenciava os nossos passos e dava um novo
ritmo aos nossos corações. Improvisando para fazer coincidir os
eventos com os deslocamentos e prever o fluxo. Tínhamos que
segurar com discrição a multidão por um tempo antes de ela chegar
aos pontos dos ônibus. O objetivo valia a intervenção. Estávamos
ali para exigir que parassem de perseguir, torturar e matar
pessoas que tinham cometido só o crime de amar de forma não
convencional. Não tinham culpa de não fazer coincidir corpo,
coração, sexo e a cor da pele com as regras morais, sociais e
religiosas. Não tinham culpa de existir.
E foi assim que, no trajeto, uma mulher quase nua
se debruçou sobre o peitoril da janela de um prédio e, em peignoir
transparente, começou a dançar para nós. Rir com a gente que
comovidas começamos a gritar: “-Vem, desce, vem com a gente, vem
aqui pra dançar". Ela nos mandou um beijo, primeiro beijando as
pontas dos dedos da mão direita, depois colocando-as sobre o
coração, e o lançou sobre nossas cabeças. A emoção e o rumor
invadiram a rua e fizeram todas as janelas da Rua Julio de
Mesquita se abrirem. Seguimos em frente com mais força e menos
medo, e as janelas se povoaram de pessoas alegres e muito pobres.
“Vem com a gente... estamos aqui por vocês. Para que vocês vivam
na liberdade da sexualidade que quiserem". E elas responderam
algo como: -"Temos medo, não podemos descer, eles nos matam, somos
putas!” ao que nós respondemos: -"Somos todas Putas!".
Camisolas transparentes. Corpos abraçados que subiam nos
parapeitos das janelas e esvoaçantes corpos nus que se
acariciavam, se despiam, se mostravam como a pedir e desejar uma
homologação: o direito de existir. Foi um momento fundamental
dessa passeata, da história. Eu nunca tinha visto nada parecido. A
emoção irradiava em ondas e aos poucos chegava até o fundo e
voltava com palavras de encorajamento e com slogans que respondiam
à nossa emoção e inventavam outras. No Largo do Arouche, a policia
que lá já estava começou a ser mais evidente e a nos espremer,
diminuindo a largura da nossa manifestação. Começamos a encolher,
a juntar os panfletos e nos separar das emoções.
Eu tentei embrulhar a faixa comprida, molhada e
muito visível, mas a sacola que tinha no bolso não se desdobrava.
Preocupada com a possível repressão, saí do aglomerado, comecei a
procurar uma saída, despistei e entrei em uma travessa, uma
ruazinha muito escura onde larguei sem dó a faixa da nossa
passeata. Corri de volta e esbarrei de relance num policial que
estava entrando na rua. Nossos destinos se cruzaram de passagem,
mas superei esse obstáculo. Parei de tremer e voltei a respirar.
Aí sim corri com gosto e medo, mas com o coração livre como a
prostituta nua da janela.
Nada de chá de cadeira na delegacia ou coisa pior.
Dessa vez para mim, tinha dado tudo certo. Continuei correndo e
fiquei mais tranqüila só no Largo do Anhangabaú. Rezando
agnosticamente para a "nossa senhora das lésbicas” fazer a policia
nos esquecer, para que ninguém tivesse tido tempo de tirar fotos
da gente que poderiam servir como provas no caso de sermos presas.
Enquanto entrava no metrô, molhada, continuava a pedir a essa
nossa senhora que nos protegesse contra os policiais para
continuarmos a ser espontâneas e inesquecíveis.
Milão. 09/05/2009 |